Massagem Perineal: como reduzir lacerações no parto
Como a massagem perineal ajuda a preparar o períneo para o parto e reduzir lacerações e episiotomia. Veja evidências, passo a passo e cuidados.

A massagem perineal é uma técnica simples e acessível que pode ajudar a preparar o períneo para o parto. Se você quer reduzir o risco de lacerações, diminuir a chance de episiotomia e se sentir mais confiante para o momento do nascimento, este guia traz tudo o que você precisa saber — com evidências, passo a passo e dicas reais para colocar em prática.
Palavra-chave principal: massagem perineal. Secundárias: massagem perineal na gravidez, como fazer massagem perineal, evitar laceração no parto, preparar o períneo para o parto, reduzir episiotomia.
1. O que é massagem perineal e por que fazer
O períneo é a região entre a vagina e o ânus. Durante o parto vaginal, essa área precisa esticar bastante para a passagem do bebê. A massagem perineal é uma técnica de toque e alongamento suave do períneo na gestação, geralmente no terceiro trimestre, com o objetivo de aumentar a elasticidade, a flexibilidade e a consciência corporal para o expulsivo.
Como funciona:
- Promove um alongamento gradual dos tecidos do períneo, ajudando-os a se adaptar melhor ao estiramento do parto.
- Melhora a percepção das sensações de pressão e ardor na fase de coroamento, favorecendo o relaxamento voluntário do assoalho pélvico.
- Pode reduzir a resistência muscular local e facilitar uma passagem mais controlada do bebê.
- Menor risco de lacerações graves (3º e 4º grau).
- Menor necessidade de episiotomia.
- Possível redução de dor no pós-parto imediato.
2. Benefícios comprovados: o que dizem os estudos e diretrizes
A literatura científica aponta benefícios claros do uso da massagem perineal na gravidez:
- Redução de lacerações graves: revisões sistemáticas e meta-análises mostram menor incidência de lacerações de 3º e 4º grau entre quem pratica a técnica (Abdelhakim et al., 2020; Venugopal et al., 2022) [links: Springer; PMC].
- Menor taxa de episiotomia: estudos indicam redução do uso de episiotomia, especialmente em primíparas (Abdelhakim et al., 2020).
- Menos dor perineal no pós-parto: alguns ensaios relatam menor dor e desconforto nas semanas após o parto (Yin et al., 2024, BMC Pregnancy and Childbirth).
- ACOG (Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas): reconhece que a massagem perineal, no pré-natal ou no segundo período do parto, pode diminuir a resistência muscular e reduzir lacerações (ACOG, 2018).
- RCOG (Royal College of Obstetricians and Gynaecologists): inclui a massagem perineal como medida para reduzir o risco de lacerações e recomenda estratégias complementares no parto (RCOG, guia público).
- Fontes clínicas confiáveis, como Mayo Clinic e Cleveland Clinic, também descrevem benefícios e orientam o início no fim do terceiro trimestre (Mayo Clinic; Cleveland Clinic).
Essencial: a massagem perineal reduz riscos, mas não garante ausência total de lacerações. O tamanho/posição do bebê, dinâmica do parto e práticas da equipe também influenciam o resultado.
3. Quando começar no terceiro trimestre, frequência e duração
- Momento ideal: a partir de 34 a 36/37 semanas de gestação, até o parto (Cleveland Clinic; RCOG). Começar por volta de 34 semanas é o mais usual.
- Frequência: 3 a 4 vezes por semana.
- Duração por sessão: 5 a 10 minutos, de forma regular e gentil.
- Escolha um horário em que você esteja relaxade (após banho morno costuma ajudar).
- Combine com o/a parceiro(a) 2 a 3 dias fixos na semana para criar consistência.
- Se preferir sozinhe, use um espelho e opções de posição que facilitem o alcance.
4. Preparação: higiene, ambiente e lubrificantes seguros
Antes de iniciar:
- Higiene: lave bem as mãos e mantenha as unhas curtas e lixadas para evitar microlesões.
- Ambiente: local tranquilo, privativo e confortável; luz suave e respiração calma favorecem o relaxamento.
- Lubrificação: use óleo vegetal natural (amêndoas doces, coco, oliva, semente de uva) ou lubrificante à base de água. Evite vaselina, óleos minerais, produtos com fragrância/mentol, óleos essenciais intravaginais e qualquer produto que gere ardência ou irritação.
- Está no terceiro trimestre (≥34 semanas), sem sangramento, sem dor pélvica aguda, sem infecção vaginal ativa.
- Recebeu autorização do/a profissional que acompanha seu pré-natal, especialmente se houver alguma condição de risco.
5. Passo a passo da massagem perineal (sozinha ou com apoio)
Posições possíveis:
- Semi-reclinade na cama, com joelhos flexionados e pernas afastadas, apoiando as costas com travesseiros.
- Em pé, com uma perna apoiada em um banco/banqueta.
- De ladinho, com um travesseiro entre as pernas (pode ser mais confortável no fim da gestação).
Ajustes importantes:
- A sensação esperada é de alongamento e, por vezes, um leve ardor. Dor intensa, sangramento ou desconforto persistente são sinais para parar e buscar orientação.
- Com o tempo, é comum perceber maior flexibilidade. Progredir lentamente é mais eficaz do que usar força.
6. Como envolver o/a parceiro(a): comunicação e consentimento
A participação do/a parceiro(a) pode tornar a prática mais confortável e fortalecer o vínculo do casal:
- Consentimento e limites: conversem antes sobre o que é confortável, estabeleçam uma palavra-sinal para pausar ou diminuir a pressão.
- Comunicação contínua: combine escalas de 0 a 10 para avaliar a pressão ideal e ajuste em tempo real.
- Cuidado e respeito: movimentos lentos, mãos higienizadas, unhas curtas e atenção ao retorno de quem está recebendo a massagem.
- Clima de cuidado: música suave, luz baixa e respiração coordenada transformam o momento em um ritual de preparação para o parto.
7. Dicas de conforto e adesão: torne a rotina sustentável
- Banho morno antes da sessão para relaxar tecidos.
- Respiração 4-6: inspire em 4 tempos, expire em 6; ajuda a soltar o assoalho pélvico.
- Espelho para orientação visual no início.
- Variações de posição conforme o avanço da gestação.
- Pequenos progressos: iniciar com 3-5 minutos e aumentar gradualmente.
- Se o alcance estiver difícil, peça apoio do/a parceiro(a) ou converse com uma fisioterapeuta pélvica.
- Regularidade > intensidade: sessões curtas e frequentes funcionam melhor do que longas e esporádicas.
8. Contraindicações e quando evitar a técnica
Evite a massagem perineal e converse com o/a profissional do pré-natal se houver:
- Infecções vaginais ativas (candidíase, vaginose, herpes) ou lesões locais.
- Sangramento vaginal, dor pélvica intensa ou contrações ritmadas antes do termo.
- Placenta prévia ou qualquer condição em que o toque vaginal não seja recomendado.
- Bolsa rota (rompimento das membranas) sem avaliação médica.
- Cerclagem (ponto no colo do útero) sem liberação profissional.
- Dor forte, sangramento, corrimento com odor, febre ou ardor persistente. Nessas situações, suspenda a técnica e procure orientação.
9. Erros comuns e como corrigi-los
- Pressão excessiva: substitua força por constância; alongamento suave e progressivo é mais seguro e eficaz.
- Falta de lubrificação: use óleo vegetal ou lubrificante à base de água para reduzir atrito e desconforto.
- Direção incorreta: a pressão principal é para baixo (posterior) e para as laterais, nunca para cima em direção ao púbis.
- Baixa regularidade: crie lembretes no celular e vincule a prática a um hábito (após o banho noturno) para manter consistência.
- Ignorar sinais do corpo: dor não é objetivo; ajuste ou pare se houver incômodo significativo.
10. Mitos e verdades sobre massagem perineal
- “Garante que não vai rasgar.”
- “Induz o trabalho de parto.”
- “É só para quem vai ter o primeiro bebê.”
- “Dói e pode machucar.”
11. Além da massagem: outras formas de proteger o períneo no parto
Estratégias complementares baseadas em evidências:
- Compressas mornas no segundo período do parto: reduzem lacerações graves e são recomendadas por entidades como o RCOG.
- Posições que favorecem o períneo: lado (decúbito lateral), quatro apoios ou verticalizadas podem diminuir pressão direta no períneo em algumas situações; ajuste conforme orientação da equipe.
- Apoio perineal com as mãos pela equipe (suporte manual) e expulsivo controlado: ajudar a “respirar” o bebê em vez de empurrar com força quando a cabeça coroar pode proteger o períneo (ACOG).
- Evitar episiotomia de rotina: reservar o procedimento a indicações específicas diminui morbidades (ACOG; RCOG).
- Comunicação com a equipe: compartilhe seu desejo de proteger o períneo e pergunte sobre uso de compressas mornas e suporte manual.
12. Perguntas frequentes e quando buscar orientação profissional
Perguntas frequentes (FAQ):
- Dói fazer massagem perineal? Deve haver sensação de alongamento e, às vezes, leve ardor. Dor forte não é esperada; ajuste a pressão ou interrompa.
- Quando começar? A partir de 34 semanas, 3–4 vezes/semana por 5–10 minutos (Cleveland Clinic; RCOG).
- Preciso de óleo específico? Óleos vegetais puros ou lubrificantes à base de água são boas opções. Evite vaselina, fragrâncias e óleos essenciais intravaginais.
- Pode induzir o parto? Não há evidência de indução (Mayo Clinic; Cleveland Clinic).
- É útil se já tive bebê antes? Sim, especialmente se houve laceração ou episiotomia anterior (RCOG).
- Tenho hemorroidas/varizes vulvares. Posso fazer? Pode ser desconfortável. Use pressão mínima e converse com seu/sua profissional de saúde.
- E se tenho vaginismo ou dor pélvica? Procure acompanhamento com fisioterapia pélvica; pode ser preciso adaptar a técnica.
- Fiz cerclagem. E agora? Só com liberação do/a obstetra.
- Posso continuar com a bolsa rota? Não. Evite toques vaginais e busque avaliação.
- Dúvidas sobre a técnica, dor persistente, sangramento, sinais de infecção ou condições clínicas específicas.
- Procure obstetra, obstetriz, enfermeira obstetra ou fisioterapeuta pélvica para avaliação personalizada e demonstração prática.
- ACOG. Prevention and Management of Obstetric Lacerations at Vaginal Delivery (2018): https://www.acog.org/clinical/clinical-guidance/practice-bulletin/articles/2018/09/prevention-and-management-of-obstetric-lacerations-at-vaginal-delivery
- RCOG. Reducing your risk of perineal tears: https://www.rcog.org.uk/for-the-public/perineal-tears-and-episiotomies-in-childbirth/reducing-your-risk-of-perineal-tears/
- Mayo Clinic. Preventing vaginal tears during childbirth: https://www.mayoclinic.org/healthy-lifestyle/labor-and-delivery/expert-answers/preventing-vaginal-tearing-during-childbirth/faq-20416226
- Cleveland Clinic. Perineal Massage in Pregnancy: https://health.clevelandclinic.org/perineal-massage
- Abdelhakim AM et al. (2020). Systematic review on antenatal perineal massage: https://link.springer.com/article/10.1007/s00192-020-04302-8
- Venugopal V et al. (2022). Meta-analysis on perineal massage: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9759438/
- Yin J et al. (2024). BMC Pregnancy and Childbirth: https://bmcpregnancychildbirth.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12884-024-06586-w
- Pregnancy, Birth & Baby (AUS): https://www.pregnancybirthbaby.org.au/perineal-massage
Conclusão: A massagem perineal na gravidez é uma estratégia simples, segura e baseada em evidências para evitar laceração no parto (especialmente as mais graves), reduzir episiotomia e preparar o períneo para o parto. Com técnica gentil, regularidade e apoio da equipe, você aumenta suas chances de um expulsivo mais confortável.
Próximos passos:
- Incorpore a massagem na rotina a partir de 34 semanas.
- Alinhe expectativas e plano de proteção perineal com sua equipe de parto.
- Se possível, agende uma sessão com fisioterapia pélvica para feedback personalizado.